Catorze dias atrás se descobriu completamente trancafiado. Dormirá em casa, todavia não acordará la. Paredes brancas, luz branca, piso branco, camisetas brancas. Tudo muito branco. Dormirá em casa, mas meio que por mágica, não acordará lá.

Trancafiado. Foi empurrado a uma rotina de tratamento e lavagem cerebral. Tratamento oral e lavagem cerebral, e isso era diário, e ao menos que apresentasse um mau comportamento incomum, esse processo era realmente diário.

Quando esse comportamento se tornava insustentável, era encaminhado imediatamente para uma psicóloga de plantão, ou para alguma figura que fosse paga pra desempenhar esse papel. Que, aliás, me desculpem os profissionais de psicologia, mas muitas são as mães, as avós, os padres, os pastores, as mães de santo, as manicures, as cabeleireiras, os trocadores de ônibus, os motoristas de taxi e até os de mototaxi que desempenham com louvor a função de ouvir e mal – aconselhar o seu ouvinte. Nesse caso o diploma me parece inócuo.

O tratamento era coletivo. Enfileirados, todos, com sintomas diferentes, com sinais diferentes, com rostos diferentes, sofrendo dramas diferentes, porém vestindo a mesma camiseta branca e recebendo a mesma medicação. Pasteurizada. Em doses cavalares pra uns e homeopáticas pra outros, pois afinal, eram todos diferentes, com corpos diferentes, alturas diferentes e pesos diferentes.

Quatorze dias atrás era considerado, pelo menos por si, são. Em casa acordava, e fazia questão de não se entregar a mesma rotina, mesmo que a televisão o convidasse incessantemente a isso, com seus novos episódios, suas séries, suas novelas, seus jornais (que mais parece ficção vide noticiário esportivo). Todo os dias acordava e procurava um novo destino para aquela jornada, que durava entre o nascer e o pôr-do-sol, as vezes se estendia um pouco mais, mas via de regra se encerrava com o fim da luz do dia.

As aventuras que ele se propunha me parecem irrelevantes nesse ponto.

Já a contestação de sua sanidade não. Pois é óbvio que o que ele julgava correto, na verdade não é, fosse isso não seria levado. Não seria internado, não lhe aplicariam medicina tão drástica.

Quando eu disse que para alguns as doses de psicotrópicos (ainda não havia usado esse termo, mas é por certo o mais apropriado) eram cavalares, por culpa das diferenças inerentes aos seres humanos que não eram respeitadas, me referia a ele. As doses eram desumanas, e ao final do dia sempre cobravam seu preço, com efeitos colaterais terríveis. Assim como a maioria dos remédios que os médicos nos mandam tomar, levados pela sugestão de representantes que entendem menos do corpo humano do que eu de física quântica.

O único alento era saber que aquele tratamento coletivo era misto, e mesmo que por sorte ou por coincidência ela também se tratava ali. Com a mesma camiseta branca. Com cabelo sempre amarrado. Pra ela, no entanto, não parecia doer tanto. Não parecia ser tão cruel.

Catorze dias depois de se descobrir naquele manicômio resolveu lutar contra seu destino, e já adianto: foi em vão.

Quatorze dias depois e mais catorze dias se passaram até que começou a se conformar.

Nesse meio tempo ainda resistiu. Mas as doses diárias de drogas, as conversas com a dita psicóloga, e aquela pasta que eles insistiam em chamar de comida foram exaurindo suas forças, como nos vídeo games, nos jogos de lutinha, quando se apanha a barrinha que mede sua força vai se tornando cada vez mais vermelha, até que toda a vitalidade tenha ido embora, a dele se tornará cinza. Como a sua camiseta branca, que depois de quatorze lavagens se tornará cinza. Como as paredes brancas que depois de mais catorze dias também se tornaram cinzas. E como ela que depois de quatorze dias… Ela não depois de catorze dias continuava linda. Com a camiseta branca, o sorriso branco, a áurea branca, o cheiro branco, o sabor branco. Branco esse que colocado sobre esse contexto não era ruim. Aliás, muito pelo contrário.

Os psicotrópicos continuavam sendo injetados nele, dia pós dia, e eles se encavalavam em suas veias, em suas vias aéreas, não tinha tempo de digerir o dia anterior e já recebia a dose daquele dia, que ao final do dia cobrava seu preço.

Aquela jornada, como todas as outras teria um fim. Mesmo que esse fim estivesse a quatorze vezes catorze dias de distância dali.

Todos os dias ele dormia em casa, seus pais o apanhavam, ele fazia sua última refeição do dia (a melhor do dia é claro) em casa e ali dormia. E todos os dias ele voltava pra se tratar. Sempre sedado porque nunca soube como chegava até ali.

É claro que quando o sinal tocava e ele descia pro pátio pra correr atrás de uma bolinha de papel aquilo tudo parecia diferente. Às vezes fazia até sentido, mas no final das contas o recreio não durava mais de catorze minutos.

Dos bons dias só lhe sobraram às fotos velhas, cor de sépia, castigadas pelo tempo, e as lembranças que elas carregam. Aquelas fotos tornaram-se chaves, que abriam portais com rumo ao passado. Um passado glorioso, mesmo quando não, dentro daquele universo paralelo revelado pelas velhas fotos em tons de sépia, ele era tão glorioso quanto o seu pensamento pudesse pensar tão glorioso quanto as folhas de louro podiam coroar, tão glorioso quanto…

No apartamento, uns discos velhos, um som velho, sintonizado em uma rádio que parecia falar só para velhos, um sofá velho, cômoda velha, geladeira velha, um fogão velho, um filtro de barro, copos de alumínio, uma garrafa de cana, em cima de uma mesa velha, um bule, um coador de pano, pó, açúcar, uns biscoitos, umas torradas industrializadas, um bolo de padaria, o resto da marmita de ontem.

Sargento do exercito brasileiro, em seus áureos tempos, comandou o Brasil junto a ditadura, foi responsável direto pela destruição de vários focos do comunismo no país. Em escolas, em igrejas, em farmácias e pasmem até em um banco. Mandava no Brasil, junto com seus colegas, sua tropa, seu batalhão, sua instituição.

Foi glorioso, foi grande, foi forte, foi.

No final dos anos 70 sofreu um acidente, ao tentar dissipar uma manifestação sindical se deparou com um grupo (mais um) disposto a resistir. Depois de alguma luta os manifestantes correram, todos em direções diferentes, se dispersaram. Se cada um levasse com sigo uma linha amarrada teriam formado uma rosa dos ventos.

Ele resolveu então seguir o líder, esse fugia de motocicleta, não durou muito a perseguição, um ônibus urbano, de linha, encontrou seu carro, um acidente horrível. Tinha sorte de ter saído dali vivo. Vivo não inteiro.

Passou por cirurgias de reconstrução, sua cara mudou, e como até aquela data não tinha se firmado com moça nenhuma, é provável que passasse o resto de seus dias na solidão.

Perdeu também seus dentes, pelo menos alguns deles, e os substituiu por uma dentadura, que venhamos tem suas conveniências.

O acidente e seu estado forçaram sua aposentadoria, agora perante os olhos do estado, era um invalido.

Não vale aqui relatar o drama que se seguiria, também porque até o fechamento dessa estória essa personagem não se apresentou dignamente pra mim.

Com seu fundo de garantia e sua indenização comprou um apartamento, e passou a trabalhar na reforma dele. Reforma completa passou a pegar bicos. Mas bico enjoa.

Conseguiu então o emprego de porteiro, em seu próprio prédio. Substituiria um porteiro queridos por todo, mas que teve que se mudar para acompanhar o filho que tentava a carreira de jogador de futebol no exterior ou em Alagoas.

Ele pegava a portaria as 14h e entregava as 22h, em troca não pagava mais a taxa de condomínio e ainda ganhava algum dinheiro.

Uma figura amarga, de poucos amigos, de pouco interesse. Se não fosse invalido, com certeza teria recebido honrarias do exercito, e se não fosse aquele piquete de comunistas disfarçados hoje não seria obrigado a trabalhar como porteiro, nada contra, mas aquilo não era pra ele.

Por isso odiava as associações, os sindicatos, as confederações, os circuitos e tudo mais.

E achava que a maior burrada da história foi a retirada do poder das mãos dos militares. O Brasil era melhor, tinha mais paz, tinha mais ordem. E isso trazia mais liberdade, isso é natural.

Uma figura amarga de poucas palavras, e de muitas reclamações, nada nunca esta nos conformes. Uma figura no mínimo pouco simpática.

Fez de seu apartamento seu mausoléu, e dali surgia como uma múmia pra cumprir sua função. Uma múmia quase que deformada pela ação do tempo. Quase.

Se mantinha vivo por conveniência e por medo da morte.

Fazia o que seu cargo lhe pedia, cumpria o que lhe era devido.

Naquela altura a vida já havia lhe roubado todos os seus prazeres. A farda, as mulheres, as praças. Não lhe restou quase nada.

Todos os dias por volta das 15h, mais ou menos uma hora depois do inicio de seu expediente, ele pegava em sua sacola uma marmita, ainda morna a abria, limpava com um guardanapo uma colher velha, pegava um copo, enchia d’água e ali colocava sua dentadura, e de colher comia todo o conteúdo de sua marmita, comia como os deuses do Olimpio comiam a sua ambrosia. Comer de colher, aquele prazer à vida não lhe havia tirado.

Todos os dias.

Exceto em suas folgas e nos feriados.

Fazem dois, talvez três dias desde a última que vez em que me atrevi a desafiar meus instintos pela última vez. Os sinais me diziam pra que eu não atravessasse, meus pés me pediam pra que eu me aquietasse. Mas o desejo… Meu desejo que ao longo dos anos vem se provando meu pior inimigo. Meu desejo e minha má vontade. Na verdade: meus desejos, minha má vontade e minha preguiça. Essa realmente é uma grande inimiga, chega a ser intrigante a forma como eu me entrego inerte aos anseios dessa entidade que habita minhas pernas, meus braços, minha boca, meus olhos.

Segundo o que me consta esse é o pior tipo de prisão, a prisão sem amarras, prisão sem grades, prisão guardas, sem câmeras de segurança, sem o consentimento da sociedade, sem os disparates da ansiedade. Prisão que te pega, que te entope, que te faz enjoar com seu próprio gosto, com seu próprio cheiro.

Fazem dois, no máximo três dias que eu realmente me dei conta d´o quão critico meu estado se encontrava, essa coisa de se decidir por qual lado seguir sempre me martirizaram. Sempre me infernizaram.

E nessa de se guiar pelos instintos, pelos instintos mais brandos, ou pelos instintos mais animalescos, às vezes funciona. Só as vezes eu sei, mas funciona. Como quando instintivamente você escolhe um caminho não ortodoxo, vira uma rua antes, e como prêmio foge de um engarrafamento enorme, e consegue chegar mais rápido em casa.

Por vezes seguir essa predileção sobrenatural, baseada puramente em um insight pode trazer bons resultados, e as vezes a vida te manda sinais que quase que sem querer te levam a tomar decisões especificas que podem ou poderiam mudar muito o rumo das coisas que dão sentido a vida, a sua vida, a minha vida, enfim, a vida em si. Como quando na semana de uma viagem importante, você bate seu carro. Sem seguro, sem dinheiro e sem tempo hábil pra conseguir outro meio pra fazer a mesma viagem, você se vê obrigado a cancelar essa viagem. Parece chato, até você descobrir que, no momento que você estaria descendo aquela serra, naquele exato momento ocorreria também um acidente, um acidente feio, um deslizamento de terra, ou alguma coisa desse tipo. Ta que a chance de que você estivesse de fato envolvido nesse acidente é remota, mas vai que acontece… Pensando por ai, seus instintos, predileções paracientíficas, ou o mesmo destino parecem ter te protegido, parecem ter te preservado, ou parecem ser seus amigos.

Há uns dois ou três dias atraz, não me lembro bem, eu tinha uma parte de mim que me dizia pra não atravessar aquela rua, eram perto de dezoito horas e a rua estava muito movimentada, uma espécie de hora do rush com carros apressados, ônibus lotados, pessoas voltando pra casa, pessoas correndo de casa, pessoas indo pra escola, pensamento voando mundo afora, enfim, depois de mais um dia enfadonho, de mais um dia enjoado, de mais um dia de trabalho sem sentido, de mais um dia sem motivo, sem sentido, sem sentido mesmo. Cada um na sua viagem, mas todos na mesma passagem… cada um na sua viagem. Sente a brisa?

Faz dois ou três dias no máximo que eu cai na bobagem de não esperar minha mãe terminar seus afazeres, me apressei também, sem motivo algum, pra mim de nada valeriam aqueles cinco minutos, tenho certeza que a minha televisão me esperaria no mesmo lugar de sempre. Hoje eu digo isso com toda a certeza que meus instintos me passavam e eu, em um minuto de estupidez não pude compreender.

Faz dois, no máximo três dias, uma avenida com nome de rio, ônibus lotado, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro…

__Me espera ai filhinho, a mamãe já ta indo.

__Não mãe eu vou correr se não eu perco o Hugo…

Carro, carro, carro, um Volks vinho, minha bicicleta, um Volks Logos, minha bicicleta. Um Logos vinho. Caminhos que se cruzam.

O céu, o vôo, o capô, o carro, o solo.

Sangue.

Sangue

Sangue.

__Meu Deus segura meu filho.

__Ih… desse ai não sobrou nem a alma…

Sangue.

Sangue.

Depois disso, eu me lembro do dono da loteria, em seu carro, correndo comigo pro hospital, lembro da minha mãe me segurando, lembro do meu pai chegando mais tarde, afoito, tentando disfarçar a preocupação, eu só queria ir jogar bola e comer strogonoffe no outro dia, não sei se de frango ou de filé, mas tinha batata palha. Ah e me lembro também de ter escutado pela primeira vez o “Vamo Batê Lata” dos Paralamas, mas especificamente da música “Dos Margaritas” …

Eu fiquei sabendo que fazem dois ou três dias que a prefeitura mandou colocar um quebra-molas bem no lugar onde eu fui atingido, um quebra molas e uma faixa de pedestre, quase que um homenagem pra mim, ou pelo menos eu me senti assim quando me contaram… Mas tem dois ou três dias que eu passei lá, e pra minha surpresa, retiraram o quebra molas… mas a faixa de pedestre continua. Assim como meu medo de bicicletas.

Exatamente três meses, doze dias e duas horas depois de fazer sua primeira vitima, a liberdade condicional tão almejada fora enfim alcançada. Durante todo esse tempo foi necessário grande habilidade e destreza de seu armeiro que conseguiu uma forma de contatar seu general. Por meio de cartas, latas ligadas por um barbante, mensagens deixadas na janela durante a noite ou coisa assim. Fato era que de seu exercito só o armeiro ainda fazia parte de suas fileiras, e por não ter se envolvido diretamente no primeiro ataque, o último episódio não o afetou. Ele continuava solto, como se não fizesse parte de nada daquilo.

Dos outros soldados eu não posso falar o mesmo. Dois deles se mudaram os pais com medo das conseqüências das atitudes de seus filhos trataram de deixar seus empregos e partir pra algum lugar onde ninguém soubesse da barbaridade que fora ali cometida, esse dois eram irmãos. O outro foi forçado a mudar de bairro e de escola, filho de pai bêbado, dizem que ele apanhou tanto que ganhou, por culpa deste episódio, um desvio de coluna.

Como bom general que era ele se mantinha informado de tudo o que se passava na sua região, e aproveitou e bem seu confinamento para treinar a sua pontaria, esperava que os adultos se distraíssem e se escondia no quintal com seu revolver de pressão e então atirava.

Tendo definitivamente tomado posse de sua liberdade ele percebeu o quão poderoso se tornara quando descobriu que aquele carteiro, que já tinha problema em um dos rins, estava até naquele dia no hospital, fazendo hemodiálise e na fila de um transplante.

Quando andava na rua percebia o medo das pessoas ao olharem pra ele, se tornará poderoso, mas sabia que não podia agir por ali. Em um encontro secreto com seu armeiro percebeu a necessidade de capitalizar seu exercito, percebeu que com uma arma na mão poderia fazer mais, poderia ser mais. O armeiro lhe contou de um filme que vira enquanto não podiam entrar em ação: Cidade de Deus. E dali ele tinha tirado várias idéias que poderiam juntos colocar em prática, depois de duas ou três reuniões eles conseguiram então definir um objetivo – conquistar toda a vizinhança. Mas pra isso precisariam de uma arma. Seu pai já havia se desfeito da arma com a qual ele deu seu primeiro tiro. Precisavam de dinheiro, e era urgente, seu plano não podia mais esperar.

__Porque não roubamos umas lojas?

__Roubamos com o que?

__Ora, com a sua arma de pressão!

__Quem daria dinheiro sob a mira de uma arma de brinquedo?

__Você mesmo não se confundiu… É só segurar com firmeza que ninguém vai ser burro o suficiente pra te confrontar.

E o armeiro tinha razão. Eles então combinaram tudo, quando chegassem a escola fugiriam, pegariam um ônibus e em um outro bairro fariam o assalto. Eles estudavam na mesma escola em turmas diferentes. Não se encontravam durante o recreio, pois concluíram que seria melhor para todos se sua parceria fosse mantida em segredo.

 

O primeiro assalto

Seria ingenuidade pensar que o primeiro assalto seria bem sucedido, se o fosse eles poderiam tomar o lugar do Coringa ou do Lex Luthor e se tornarem super vilões. Eles tomaram o cuidado de ir para um bairro longe de suas casas, avistaram a vitima perfeita, era uma loja que ficava perto de terreno que poderia servir de abrigo para depois do ato. Pensaram até em deixar escondido nesse terreno o fruto de seu trabalho, para que pudessem sair dali sem maiores problemas e depois no outro dia pudessem voltar lá e buscar o que já lhes seria de direito.

Esperaram que a loja se esvaziasse e a invadiram, com camisetas tampando o rosto e gritando:

__Mãos pra cima! É um assalto!

(Nobody move, nobody get hurt, ninguém se move, ninguém se machucará então, nobody move, nobody get hurt, respeito é bom e mantém os dentes no lugar)

O cenário era perfeito, uma dessas lojas de bairro onde se vendem desde balas a bombas para encher bolas, era uma loja que tinha um bom movimento e, portanto deveria também ter um bom faturamento. Era só uma balconista naquela hora, a outra estava na pausa do café, lanchando na lanchonete que ficava ali em frente. O plano era simples, pega o dinheiro e corre se esconde no terreno, esconde o dinheiro e no outro dia voltavam pra buscar. O plano era simples e de fácil execução.

Tinham um código para cancelar a ação, caso algum dos dois percebesse perigo, e o armeiro acessou esse código, só dentro da loja ele percebeu que aquela era a loja de seu tio. Viu sua prima no balcão. Assustada. E percebendo as conseqüências negativas daquele assalto ele resolveu abortar e anunciar que estavam apenas brincando. Susto passado, a brincadeira foi bem recebida e ela até pagou um lanche para os dois brincalhões.

Estava claro que eles precisariam melhorar o planejamento de seus ataques. E assim o fizeram. E uma semana depois conseguiram enfim assaltar uma loja, em um bairro distante, o assalto lhes rendeu pouco mais de duzentos reais que seriam suficientes para conseguir uma arma de verdade.

Nas quatro semanas que seguiram eles conseguiram assaltar mais cinco lojas e sete pessoas, já tinham cerca de dois mil reais, dinheiro suficiente pra pagar soldados de verdade. Contratariam tropas mercenárias. Enfim teriam o exército de que tanto precisavam.

Passaram uma etapa importante e a cada missão mostravam que o sangue jorrava de seus olhos, ele ainda não esquecerá dos lixeiros, e agora que se tornará um verdadeiro pistoleiro, liberto de sua masmorra ele cuidaria daquele assunto.

__ 7 dias de maresia e você ainda quer ficar mais? Eu não agüento mais esse sal no meu corpo, essa atmosfera salobra no ambiente. E esse mormaço insuportável? Não importa guarda-sol, guarda-chuva, protetor solar com fator 200, óculos escuros ou o que quer que seja no final do dia eu fico sempre na mesma. Vermelha que nem tomate maduro.

__É só mais um dia. Eu prometo que as quatro da tarde nós pegamos estrada. Subimos a serra antes da hora do rush e fica tudo bem. Ah! Eu mereço isso, afinal amanhã eu já tenho que, de novo, encarar aquele emprego chato, encarar meu chefe chato, reunião chata, vestir meu terno chato, comer comida chata, do lado de pessoas chatas…

__Ta bom querido. Eu não quero ouvir mais nada. Agente fica… Mas ó: é da praia direto pra estrada, você toma banho em um quiosque e de lá nós já pegamos estrada. Você sabe que até BH a viagem é longa, a serra é perigosa, e a linha vermelha me causa arrepios.

__Pode deixar meu bem, eu só preciso pegar mais uma onda. Não agüento ficar cercado daquele mar de montanhas e não encontrar água pra nenhum lado que eu olhe. Aqueles morros me parecem um grande martírio…

Três horas depois…

__Você não sai da água hein? Nem pra comer o sanduíche que eu pedi pra você…

__Aquelas ondas estavam imperdíveis…

__Mas e agora vai pegar estrada assim: cansado?

__Bem que você podia dirigir pra mim hein…

__Nem começa! Você sabe que eu tenho pavor de volante. Estrada então (sic) eu não pego nem em pensamento!

__Bem que agente podia encontrar uma daquelas banquinhas de banana ouro na serra… Eu adoro aquelas bananinhas…

__Foi uma boa semana, não foi?

__Sempre é! Com você, toda semana é uma boa semana pra mim…

__Você preparou alguma coisa pra gente ouvir na estrada?

__Eu salvei aquelas músicas que você adora nesse player.

__Ah é?

__Tem de tudo aqui, de tudo que é bom é claro. Tem Beto Guedes, tem Lô Borges, Milton Nascimento!

__Tem o Pinduca?

__É claro!

__Eu te falo mulher, sem você eu não conseguiria…

__Nem eu sem você!

__Ah! Tem o último do Milton aqui! Aquele de bossa!

__O que ele gravou com os filhos do Jobim?

__Esse mesmo.

Falar que eu estou contando a história de um casal não me parece necessário (apesar de já tê-lo feito). Doze anos de casados. Nenhum filho. Moravam em um apartamento no Bairro de Santa Mônica, um ótimo lugar pra se viver em Belo Horizonte, uma ótima cidade pra se viver. Capital de um estado que só não é mais do que perfeito porque alguém, não sei bem o porquê não fez o óbvio: transformar o Espírito Santo em parte do estado de Minas. Poderiam até ter deixado de lado a região do Triângulo (que só é mineiro no nome) em favor de entregar a Minas o tão merecido braço de mar…

Questões geopolíticas aparte, viviam bem, os dois tinham bons empregos, ele funcionário de um banco, advogado por formação, mas nunca exercera sua profissão, ainda na faculdade foi estagiar em um grande banco e por lá ficou, exercendo as mais diversas funções, nunca aquela que aprenderá na faculdade, nunca a que seu diploma pudesse sugerir.

Ela funcionária pública estadual, trabalhava na secretária da cultura, talvez a secretária com menos recursos disponíveis, mas sem dúvidas a secretária com menores problemas e portanto com melhores condições de trabalho, afinal podia ficar perto dos artistas que tanto admirava, não pagava pra entrar nos espetáculos que queria assistir, isso quando não era uma das “fomentadoras” desses espetáculos, atributo esse que mais lhe encantava no cargo que exercia.

Todo ano eles tiravam férias juntos, dividas em dois períodos, em um deles eles viajavam para o exterior, queriam conhecer o mundo juntos. No outro eles não abriam mão de passar pelo menos uma semana no Rio de Janeiro, não havia como resistir ao Rio de Janeiro, saindo de BH são menos de 500 km. 500 km de uma viagem linda, a serra por exemplo é magnífica. É perigosa todo mundo sabe, principalmente no verão, quando sempre chove, mas é linda. Disso eu não tenho dúvidas.

A cumplicidade dos dois era uma coisa impressionante. Tinham os mesmos gostos, os mesmos desejos, as mesmas vontades, torciam pro mesmo time. Eram atleticanos, os dois, e por isso só compravam carros pretos ou brancos, na verdade só compravam carros pretos, por que carro branco em Belo Horizonte é carro de taxista, portanto pra evitar qualquer problema só compravam carros pretos, e apesar dela não dirigir, sempre tiveram dois carros na garagem.

Parecia um daqueles casais que realmente nasceram pra se completar, nas palavras, nos gestos, nas concepções, nas idéias. Era impossível imaginar um sem o outro ou o outro sem o um.

__Amor! Olha ali a banquinha de bananas!

__Amor?!

__Oi querida.

__Você estava dormindo? Para esse carro!

__Não querida eu não estava…

__Para esse carro!

__Amor… A estrada é perigosa! Você sabe disso. Vamos parar em um posto e amanhã agente segue viagem.

__Mas meu bem você sabe que eu não posso me atrasar, amanhã o gerente da sucursal latino americana do banco vai estar aqui e ele quer falar comigo, logo cedo, eu não posso perder essa reunião por nada!

__Mas vamos só tomar um café, pra você acordar.

__Mas amor se agente ficar parando toda hora eu vou perder os gols da rodada…

__ Ta bom amor, mas cuidado. Não vale a pena agente se arriscar por gols da rodada.

__Pode deixar querida.

Os indianos têm a interessante teoria do amor que se constrói depois do casamento, do amor que não vinga antes do casamento e torna-se então o motivo do enlace, mas do amor que, só acontece depois do compromisso. Eu seria estúpido em dizer que isso aconteceu com esse casal, mas também o seria se não admitisse que conjugados eles só fizeram crescer, e tornaram-se dia após dia órgãos vitais do organismo um do outro.

(Vinte minutos de viagem depois e ela se abaixa pra tentar recuperar uma aspirina que deixara cair em seus pés, mas viajando ficam tantas coisas em seus pés são bolsas, garrafas com água, biscoitos, blusa de frio, case de CDs, caixinha de primeiros socorros… )

__Querido eu posso trocar de música?

__Querido eu posso trocar de música eu não agüento essa mulher gritando no meu ouvido!

__Querido?! Você está acordado?

__Amor a estrada!

Dor é na verdade uma mensagem que o nosso corpo nos manda pra dizer que algo não está bem que algo estar errado dor é sinal como sinal de fumaça dos índios como mensagem que recebemos pra lembrar que o pagamento do telefone era na verdade ontem dor te avisa quando o corte já esta feito quando o osso já esta quebrado quando o estrago já esta feito e o engraçado é que nós sabemos quando essa dor vai chegar nós sabemos quando está tudo próximo de acabar prova disso é que quase todas as pessoas que passaram pela experiência do quase morte em acidentes ou quando confrontadas com armas ou em qualquer situação essas pessoas sempre relatam que em poucos segundos conseguiram refletir e rever tudo aquilo que foi importante em suas vidas conseguem em frações de segundos rever sua infância seus amores suas dores seus pais seus animais sua terra seus pecados suas virtudes suas cores e seus amores nesse momento ele perdeu o controle chovia chovia muito e a serra na chuva fica especialmente perigosa os caminhões com suas manutenções sempre em atraso passam deixando óleo por toda a pista óleo que seca no calor mas que com a chuva volta a ter seu efeito de lodo de cachoeira ele acordou assustado com o grito de sua esposa bateu os pés no freio de nada adiantou a colisão era iminente o farol do caminhão que via logo a sua frente só aumentava a sensação de pânico só aumentava a cara de pânico daqueles dois o fim era mais do que nunca questão de segundos fração de segundos aquela colisão entraria para os anais da história daquela bela estrada chovia muito naquele começo de noite já ouvi falar que moradores inescrupulosos de casas na beira da estrada jogam óleo na pista só para que os carros rodem e os ocupantes possam contratar seus serviços alugar seus telefones comprar seus badulaques e coisas assim um absurdo sem fim (sic) mas o qual eu não duvido não me resta narrar muita coisa um carro de passeio quando bate de frente a um caminhão que descia na banguela pra economizar combustível só pode ter um único resultado e as fotos daquele acidente seriam horríveis chovia muito naquele dia a montanha parecia chorar era o fim de um caminho que não parecia ter fim nem pra um nem pra outro ele dormiu no volante não o farol do caminhão ficava cada vez mais perto chegava cada vez mais perto em tempo de ainda relembrarem as alegrias do casamento dia especial que fora a muito tempo daquele dia até hoje dia especial que se passara e eles se amaram passou por essas catarses não sem tempo  não percebeu que invadia a pista contrária não percebeu que sua velocidade estava alta chovia e a pista escorregadia só catalisava as chances daquela colisão ele estava cansado passará  o dia no mar debaixo do sol e isso cansa até o mais bem preparado dos atletas mas eles não podiam viajar amanhã não podiam ele não podia perder a reunião e ela não podia dirigir estava posto e em tempo ele estava exausto não ela tem medo de estrada justamente por isso ela tem medo de ser a responsável por um acidente como esse e eles se amavam e eles acertaram o caminhão em cheio e foram arremessados pra fora da pista por sorte não para o lado da ribanceira o carro estava acabado não havia como sobreviver a aquilo. Não?

(E no jornal do dia seguinte)

Acidente na estrada que liga Belo Horizonte ao Rio de Janeiro um carro de passeio bateu de frente a um caminhão, ambos estavam em alta velocidade e chovia muito no local. O motorista do caminhão que sofreu apenas ferimentos leves alega que o carro atravessou seu caminho. No carro havia dois ocupantes, um casal que voltava de férias. O marido morreu na hora, a esposa foi encaminhada em estado grave para a UTI mais próxima com poucas chances de sobrevivência…

De ônibus aquele caminho parecia ainda mais longo. Ano a ano, ficava mais duro, mais difícil, mais longe. Diziam que só o tempo poderia curar aquela dor. Mentira. O tempo só fazia catalisar. Aquilo só aumentava.

Eram cerca de 45 minutos. De trânsito limpo é claro. Quando chovia (e sempre acontecia) ou quando alguma das marginais tinha algum problema (isso também sempre acontecia) o tempo dobrava, as vezes até triplicava.

Sentada, sempre na janela, observava os carros, as motos, as pessoas. Imaginava se alguma delas já sentiu dor parecida com a dela. Não. Era impossível que doesse tanto e continuassem sorrindo. Continuassem andando. Seguissem em frente. Continuassem vivendo.

O tempo que deveria curar aquela ferida só conseguiu aumentá-la.   Pensava a cada momento, no que poderia estar vivendo, no que deveria estar vivendo. Poderia estar sorrindo, cantando, conversando, falando, escutando, jogando, amando ou só rindo.

Não se conformava com a forma estúpida com que se dera tamanha tragédia. Era óbvia a ironia do destino. Sentia-se um joguete, e por isso se virou contra quem sempre imaginou que a protegesse.  Contra quem sempre dedicou sua devoção e oração. Não era fiel seguidora de seus dogmas, preceitos ou mandamentos. Acreditava em sua existência mas na maioria das vezes ignorava seus mandamentos, mas mesmo assim rezava nas datas especiais e ia a igreja em quase todos os casamentos a que era convidada (principalmente naqueles em que os convites da recepção só eram entregues durante a cerimônia religiosa) e nos batizados, esses ela comparecia e se emocionava com todos.

Mas não, ele ignorou isso e permitiu que uma tragédia como essas acontecesse. Pista molhada, na volta pra casa, não estavam tão rápidos, e aquele caminhão havia entrado na frente de seu carro (não importa o que dizia o laudo), não havia como fazer nada. Exceto pelo fato de seu amado estar com sono. Se ela ao menos dirigisse talvez…

Mas o “se” não existe. E ele morreu, agonizando ao seu lado. Preza pelas ferragens ela não pode fazer nada. Implorou para que os Anjos do Asfalto o salvassem em vão. Era como se gritasse para ninguém, eles nem mesmo tentaram. Concentraram-se nela e tão somente nela.

Não faz sentido isso, até porque sua vida sem a dele não fazia o mínimo sentido. Até por isso deixara o seu trabalho, em tempo, não foi preciso nem voltar a seu escritório suas colegas de trabalho já sabiam que nunca mais teria condições trabalhar, sabiam que era ele um órgão vital e sem possibilidade de transplante dela. Era uma espécie de coração que não é uma bomba, era uma espécie de coração que servia mais como um pulmão, que lhe garantia o ar.

Doze anos de casada e não se dignou a tirar a sua habilitação, e por falta de carro para dirigir não foi. Agora dependia de ônibus para tudo. Visto que taxi era um verdadeiro absurdo.

Até para sua visita ao cemitério. De ônibus a viagem parecia ainda mais longa do que deveria ser. E a cada ano aquele martírio parecia ser maior.

E ela que sempre fora uma pessoa tão alegre, com tantos amigos, viu seus amigos se afastarem, viu sua família se afastar. Sua tristeza repelia as pessoas. Aquela perda não havia apenas arrancado um pedaço dela, mas também arrancará delas as pessoas com quem convivia.

Sua casa, antes tão alegre, se tornará uma casa escura. Seu jardim, parecia mata abandonada, e não importava o quanto ela cuidasse as ervas daninhas sempre se instalavam. E consumiam seu gramado, suas roseiras, suas margaridas. A goiabeira que antes dava tantos frutos, agora parece que só brotavam goiabas podres que caiam e pioravam ainda mais a situação de sua casa.

Depois de algumas semanas da tragédia, voltou a escola onde lecionava. Sua tristeza era noticia tão corrente que a diretora havia se apressado e colocado outra pessoa em seu lugar. Um homem. Aparentemente um homossexual sem dúvidas, um péssimo exemplo para aquelas crianças. Mas aquilo já não era de sua conta.

Seus parentes perceberam que ela precisava de ajuda. E um dia enquanto ela ia para o cemitério, chamaram um mutirão e foram limpar sua casa. E o fizeram com muita competência. Mas pra falar a verdade ou seus amigos mudaram muito, ou aqueles eram novos amigos que conquistará em suas últimas visitas a padaria, onde nunca levava nada, mas gostava de sentir o cheiro do pão fresquinho, um dos únicos prazeres que ainda se permitia sentir.

Um dia quando voltava pra casa, viu um caminhão na porta de sua casa. Sua primeira reação foi de susto, acho que estavam levando tudo o que era seu. Quando observou com mais atenção percebeu que na verdade o caminha descarregava em sua casa. Seriam presentes?

De perto viu que algumas pessoas estavam dentro de sua casa. Logo percebera que algum de seus amigos havia preparado aquilo. Afinal perceberam que aquela solidão só lhe faria mal. Novas pessoas naquela casa grande afinal fariam bem aquela casa, contudo que não se atrevessem a mexer em seu santuário, que estava preservado no sótão.

De ônibus era sempre mais problemático, em uma de suas últimas visitas ao cemitério, teve de se levantar apressada de seu lugar, antes que uma jovem com aqueles malditos fones no ouvido sentasse em cima dela, sem ao menos perceber, aquilo a revoltará, revolta ainda maior quando percebeu que o cobrador ao ver a cena não fizesse nada. Aquilo valeria uma reclamação escrita aquela companhia de transporte urbano.

Chegando em casa naquele dia viu que seus novos companheiros estavam limpando o sótão, ignorando suas recomendações. Ela já havia lhes deixado toda a casa. Quase não usava cozinha ou banheiro, o sótão era o único lugar em que ela pedira encarecidamente para que não violassem. Seus pedidos, avisos, gritos e choros foram ignorados sumariamente.

Voltou ao cemitério para chorar onde ainda sentia que tinha um colo. Olhou para suas mãos e percebeu que podia ver através dela. Olhou para o lado e pela primeira vez observou uma lápide ao lado da lápide de seu marido. E percebeu que os dizeres eram os mesmos que houvera escolhido para a lápide de seu amado. De repente e não mais que de repente sentiu uma enorme vontade de se deitar. Nem considerava a possibilidade de suicídio. Mas queria sentir de novo o calor que só sentira ao lado de dele.

Ali ela deitou-se. E ali ela, depois de muito tempo,  repousou.

É bem como dizia o poeta: ele era um menino valente e caprino, um pequeno infante sadio e grimpante. Sonhava viver no velho oeste, fã de Jesse James, Billy the Kid, Clint Eastwood. Queria lutar contra os Apaches, contra os Peles-Vermelhas, contra os Incas, contra os Maias. Sonhava com Charlie Bronson, achava que com uma única arma poderia exterminar os desgraçados que levaram, ou que levariam, sua filha, sua esposa, sua mãe…

E ele levava a sério essa estória, seu quintal era seu reino, e ele era impiedoso e intolerante com qualquer invasor. Primeiro foram os lagartos. Quantos deles viraram espetinho… Não satisfeito passou a perseguir os passarinhos. Jogava arroz no quintal. Mais ou menos como se faz com a quirela pros peixes. E preparava seu bodoque. Bodoque esse que ganhara com a mesma alegria de quem ganha na loteria. Pau de goiabeira, bifurcado, arredondado, gostoso de se pegar , borracha cirúrgica e um pedaço de couro. Um bodoque perfeito, sem mais nem menos. Um bodoque perfeito. E os passarinhos sempre caiam, sempre eram pegos pela sua armadilha. E ele assim como os mitológicos caçadores de dragões, os abatia, e pendurava as carcaças pra expor sua vitória. Não aceitava que nenhuma criatura invadisse seu reino. E com o tempo, com o treino sua mira só fazia melhorar. Até chegar ao ponto de acertar tiros perfeitos de vários metros, encontrava e acertava no muro que dividia o lote algumas tanajuras, tanajuras essas que eram consideradas como monstros. Monstros mesmo. Porque uma picada de uma formiga dessas…

Quando percebera que seu reino já estava completamente dominado, partiu então para a expansão de seus domínios. E para isso ganhara de seu avô um incentivo de valor inestimável: uma arma de pressão.

Já era hora de dominar a rua. Já era hora de se estabelecer no portão da frente. Não era possível que tantas pessoas, que tantos gatos e cachorros, violavam a frente de seu castelo impunemente, sem sua permissão, não é possível que o desrespeitassem tanto quanto via acontecendo.

Primeiro armado de seu bodoque. Esperava enfrentar esses novos perigos com suas velhas armas, afinal, era necessário primeiro treinamento e aprendizado, pois no seu reino de um soldado só ele se gabava de ser o melhor atirador, ele se gabava de ter a melhor pontaria, e não arriscaria a perder o titulo, o status, desperdiçando munição com tiros sem rumo.

E assim o fizera. Primeiro afugentou um por um todos os gatos que passeavam pelo portão baixo de sua casa. O mesmo o fizera com os cachorros. Os pássaros já não mais pousavam nem em seu quarteirão, pois eram conhecedores da carnificina de que seus pares foram vitimas. Demoraram. Mais aprenderam.

Dentro de pouco tempo seu domínio já era conhecido por vários invasores. Mas havia alguns outros que representavam um perigo real. E que seriam difíceis de serem derrubados.

De duas em duas noites passava o caminhão de lixo que recolhia todo o lixo de sua casa, pra ele estava tudo bem que o fizessem, mas o olhar ameaçador e os gritos dos lixeiros que corriam atrás do caminhão, ele os via como desafiadores, como ameaçadores, e precisava lhes mostra que ali, pra passarem ali deveriam fazer isso com respeito e o melhor seria que o pedissem o permissão.

Tinha também o carteiro, que sempre violava os portais de seu castelo e ousava colocar a correspondência por debaixo da porta. Ele ousava, abrir a portinhola (que se localizava bem ao centro do pequeno muro de dez palmos que separava o reino do território rebelde, caminhar vagarosamente, quase que desafiadoramente pelos longos dez metros que separavam a portinhola da porta da frente, ia e voltava impunemente…

Esse, aliás, foi um de seus primeiros alvos depois da planejada expansão de seu reinado, e graças a sua enorme habilidade com o bodoque, já o acertara, mas o contra-ataque foi absolutamente inesquecível. Aquele gigante, estava claro: poderia vencê-lo.

Começou a imaginar então como impor respeito aos homens do lixo, que cada vez que voltavam pareciam desafiá-lo mais e mais e mais e mais.

Um exército seria necessário. Se não o possuía em seu reino, teria de encontrar mercenários, que trabalhariam por algum pagamento. Teria de ensiná-los a atirar. Teria de mostrar-lhes comando. Deixaria se ser soldado e rei e passaria a ser general e rei. E esse titulo lhe caia melhor.

A recruta foi simples, e aqui não me cabe dar detalhes das negociações e nem dos acertos, só me vale ressaltar que, estava claro, a retórica era parte de sua personalidade, assim como a pontaria. Duas grandes características, para um grande general.

Agora ele comandava um grupo de assalto, com três homens além dele. Todos armados de bodoques, confeccionados por um quarto homem a quem fora designada a nobre função de armeiro, era dele a responsabilidade pelas armas e pela munição do grupo. Era também ele o responsável por informações táticas que pudessem ser úteis ao grupo de ataque.

Eram como pistoleiros do velho oeste. Eram como um grupo militar de elite. Eram realmente perigosos como seus bodoques a mão.

Ataque armado e grupo mobilizado. A primeira missão era clara: o carteiro.

Depois daquela tarde ele nunca mais entraria tão soberbo em terras que não lhe pertenciam.

O plano era simples. Ataque direto. Estilingadas. Pedras. Por todos os lados. Voando soltas. E o golpe de misericórdia seria um tiro. Com a arma de pressão. A munição já estava preparada. Os atiradores já estavam preparados. E a hora já se aproximava.

Seu homem responsável pelo comando tático da operação havia preparado ainda mais um surpresa. Uma linha de nylon. Transparente. Mas de grosso calibre. Atravessando o caminho entre a portinhola e a porta da frente. Bem no meio dele.

Bem é isso a hora havia chegado. Bodoques preparados. Armadilha preparada. O carteiro se aproxima. Para bem enfrente ao portão. Confere a correspondência.  Separa as cartas que deixaria ali. No número 413 da Rua São Paulo. Abre a portinhola. E depois de 7 ou 8 passos cai. É o sinal. Começa a receber pedradas. Que lhe acertavam por todos os lados. Agonizava. Gritava de dor. Uma acertará e quebrará seus óculos.

Pra ele, aquilo tudo era como poesia. Era como se ele ouvisse “Luz e Mistério” do Beto Guedes no lugar dos gritos de dor e das gargalhadas de satisfação. E seus soldados não mostravam compaixão. Não mostravam sentir pena. Em nenhum momento. Atiravam sem dó.

Depois do oponente já batido. Ele se aproximou. Com sua arma pronto pra dar o tiro de misericórdia. E apreciava, camuflado, cada segundo daquele doce momento. Vitória. Sua primeira vitória como general. Estava também impressionado com a semelhança que sua arma tinha de uma arma “de verdade”. O metal, o peso, a madeira.

Seria só um tiro, um vergão é fato, mas que com certeza inibiria de vez aquela ameaça.

Quando estava próximo o bastante para não errar o tiro, afinal ainda não tinha com seu revolver quanto tinha com seu bodoque, mirou na nadega esquerda e…

Uma explosão. Em todo quarteirão. Uma explosão ressoou por todo o quarteirão. Parecia um rojão da festa de Cosme e Damião. Um barulho estrondoso. Que chegou a doer nos ouvidos. Dele e no de seus comandados. E o coice?! Nunca sentirá tamanho coice em suas práticas de tiro. O coice lhe arremessará por dois talvez três metros pra traz.

Aquele poder de sua arma ele ainda não conhecerá.

É certo que seu pai guardava em casa uma Colt 45, modelo que é certo serviu de base para a réplica que ganhou de seu avô. Encontrou um dia essa arma de seu pai, em uma caixa de madeira. Dentro de um armário. Em um quarto usado apenas para entulhar badulaques e bibelôs.

Ficava em um compartimento superior desse mesmo armário. Sua mãe já o alertará sobre isso, e ele sabia que essa arma ficava escondida justamente por ser perigosa e portanto não poderia cair em mãos erradas.

Perigosa sua arma também era, pois com ela já tinha conseguido matar um pássaro com apenas um tiro, com seu bodoque eram necessários três ou quatro tiro certeiros na mesma ave.

Guardar sua arma como e onde seu pai guardava a dele era uma atitude óbvia. E seria demais cobrar de seu armeiro que ele não se confundisse com as armas, afinal ele não fora avisado sobre a semelhança e a possibilidade de encontrar outra arma no lugar em que seu general guardava a dele.

O sangue que jorrava do carteiro estendido ao chão e os gritos de pavor de seus soldados mostravam o desastroso resultado daquele ataque.

Desastroso?

Desastroso mesmo?

É claro que ele não sairia dali impune, mas o carteiro também não.

Mas o sangue os gritos já lhe compensariam tudo. Ainda tentou outro tiro, mas parece que a arma estava descarregada. Com apenas uma bala na agulha.

O funcionamento daquela arma era relativamente simples: os cartuchos são carregados em seis câmaras, cada uma podendo ser posicionada na frente do cano da arma. Um martelo carregado por mola é posicionado no outro lado do cilindro, alinhado com o cano. A idéia é armar o martelo para trás, alinhar um novo cartucho entre o martelo e o cano e, em seguida, liberar o martelo puxando o gatilho. A mola lança o martelo para frente, atingindo assim, o estopim. O estopim explode, inflamando o propulsor que expele a bala para fora do cano.

O interior do cano é forrado com estrias espiraladas que giram a bala para dar estabilidade. (HowStuffWorks)

A bala atravessou a vitima, um pouco acima da altura dos rins. Sorte do carteiro. Não fora um tiro fatal.

Mas para quem atira com aquele gosto. Com aquela vontade. Foi muito melhor do que o planejado. Alcançou resultados muito superiores aos desejados.

O carteiro jurou nunca mais passar por ali. Seus soldados deserdaram. Todos menos o armeiro. Por meses foi castigado. Exemplarmente castigado. Seus vizinhos nunca o perdoariam.

Mas mesmo recluso em sua masmorra, com seus cabelos lisos desarrumados, bermudas amarrotada e camisa listrada. Um sorriso ameaçador não saia de seus lábios.

Mesmo recluso ele ainda se comunicava com seu armeiro. Outros ataques ainda seriam planejados. Agora maiores. Com mais poder. Com maiores objetivos.

Havia disparado seu primeiro tiro.

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