Catorze dias atrás se descobriu completamente trancafiado. Dormirá em casa, todavia não acordará la. Paredes brancas, luz branca, piso branco, camisetas brancas. Tudo muito branco. Dormirá em casa, mas meio que por mágica, não acordará lá.
Trancafiado. Foi empurrado a uma rotina de tratamento e lavagem cerebral. Tratamento oral e lavagem cerebral, e isso era diário, e ao menos que apresentasse um mau comportamento incomum, esse processo era realmente diário.
Quando esse comportamento se tornava insustentável, era encaminhado imediatamente para uma psicóloga de plantão, ou para alguma figura que fosse paga pra desempenhar esse papel. Que, aliás, me desculpem os profissionais de psicologia, mas muitas são as mães, as avós, os padres, os pastores, as mães de santo, as manicures, as cabeleireiras, os trocadores de ônibus, os motoristas de taxi e até os de mototaxi que desempenham com louvor a função de ouvir e mal – aconselhar o seu ouvinte. Nesse caso o diploma me parece inócuo.
O tratamento era coletivo. Enfileirados, todos, com sintomas diferentes, com sinais diferentes, com rostos diferentes, sofrendo dramas diferentes, porém vestindo a mesma camiseta branca e recebendo a mesma medicação. Pasteurizada. Em doses cavalares pra uns e homeopáticas pra outros, pois afinal, eram todos diferentes, com corpos diferentes, alturas diferentes e pesos diferentes.
Quatorze dias atrás era considerado, pelo menos por si, são. Em casa acordava, e fazia questão de não se entregar a mesma rotina, mesmo que a televisão o convidasse incessantemente a isso, com seus novos episódios, suas séries, suas novelas, seus jornais (que mais parece ficção vide noticiário esportivo). Todo os dias acordava e procurava um novo destino para aquela jornada, que durava entre o nascer e o pôr-do-sol, as vezes se estendia um pouco mais, mas via de regra se encerrava com o fim da luz do dia.
As aventuras que ele se propunha me parecem irrelevantes nesse ponto.
Já a contestação de sua sanidade não. Pois é óbvio que o que ele julgava correto, na verdade não é, fosse isso não seria levado. Não seria internado, não lhe aplicariam medicina tão drástica.
Quando eu disse que para alguns as doses de psicotrópicos (ainda não havia usado esse termo, mas é por certo o mais apropriado) eram cavalares, por culpa das diferenças inerentes aos seres humanos que não eram respeitadas, me referia a ele. As doses eram desumanas, e ao final do dia sempre cobravam seu preço, com efeitos colaterais terríveis. Assim como a maioria dos remédios que os médicos nos mandam tomar, levados pela sugestão de representantes que entendem menos do corpo humano do que eu de física quântica.
O único alento era saber que aquele tratamento coletivo era misto, e mesmo que por sorte ou por coincidência ela também se tratava ali. Com a mesma camiseta branca. Com cabelo sempre amarrado. Pra ela, no entanto, não parecia doer tanto. Não parecia ser tão cruel.
Catorze dias depois de se descobrir naquele manicômio resolveu lutar contra seu destino, e já adianto: foi em vão.
Quatorze dias depois e mais catorze dias se passaram até que começou a se conformar.
Nesse meio tempo ainda resistiu. Mas as doses diárias de drogas, as conversas com a dita psicóloga, e aquela pasta que eles insistiam em chamar de comida foram exaurindo suas forças, como nos vídeo games, nos jogos de lutinha, quando se apanha a barrinha que mede sua força vai se tornando cada vez mais vermelha, até que toda a vitalidade tenha ido embora, a dele se tornará cinza. Como a sua camiseta branca, que depois de quatorze lavagens se tornará cinza. Como as paredes brancas que depois de mais catorze dias também se tornaram cinzas. E como ela que depois de quatorze dias… Ela não depois de catorze dias continuava linda. Com a camiseta branca, o sorriso branco, a áurea branca, o cheiro branco, o sabor branco. Branco esse que colocado sobre esse contexto não era ruim. Aliás, muito pelo contrário.
Os psicotrópicos continuavam sendo injetados nele, dia pós dia, e eles se encavalavam em suas veias, em suas vias aéreas, não tinha tempo de digerir o dia anterior e já recebia a dose daquele dia, que ao final do dia cobrava seu preço.
Aquela jornada, como todas as outras teria um fim. Mesmo que esse fim estivesse a quatorze vezes catorze dias de distância dali.
Todos os dias ele dormia em casa, seus pais o apanhavam, ele fazia sua última refeição do dia (a melhor do dia é claro) em casa e ali dormia. E todos os dias ele voltava pra se tratar. Sempre sedado porque nunca soube como chegava até ali.
É claro que quando o sinal tocava e ele descia pro pátio pra correr atrás de uma bolinha de papel aquilo tudo parecia diferente. Às vezes fazia até sentido, mas no final das contas o recreio não durava mais de catorze minutos.

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