Fazem dois, talvez três dias desde a última que vez em que me atrevi a desafiar meus instintos pela última vez. Os sinais me diziam pra que eu não atravessasse, meus pés me pediam pra que eu me aquietasse. Mas o desejo… Meu desejo que ao longo dos anos vem se provando meu pior inimigo. Meu desejo e minha má vontade. Na verdade: meus desejos, minha má vontade e minha preguiça. Essa realmente é uma grande inimiga, chega a ser intrigante a forma como eu me entrego inerte aos anseios dessa entidade que habita minhas pernas, meus braços, minha boca, meus olhos.
Segundo o que me consta esse é o pior tipo de prisão, a prisão sem amarras, prisão sem grades, prisão guardas, sem câmeras de segurança, sem o consentimento da sociedade, sem os disparates da ansiedade. Prisão que te pega, que te entope, que te faz enjoar com seu próprio gosto, com seu próprio cheiro.
Fazem dois, no máximo três dias que eu realmente me dei conta d´o quão critico meu estado se encontrava, essa coisa de se decidir por qual lado seguir sempre me martirizaram. Sempre me infernizaram.
E nessa de se guiar pelos instintos, pelos instintos mais brandos, ou pelos instintos mais animalescos, às vezes funciona. Só as vezes eu sei, mas funciona. Como quando instintivamente você escolhe um caminho não ortodoxo, vira uma rua antes, e como prêmio foge de um engarrafamento enorme, e consegue chegar mais rápido em casa.
Por vezes seguir essa predileção sobrenatural, baseada puramente em um insight pode trazer bons resultados, e as vezes a vida te manda sinais que quase que sem querer te levam a tomar decisões especificas que podem ou poderiam mudar muito o rumo das coisas que dão sentido a vida, a sua vida, a minha vida, enfim, a vida em si. Como quando na semana de uma viagem importante, você bate seu carro. Sem seguro, sem dinheiro e sem tempo hábil pra conseguir outro meio pra fazer a mesma viagem, você se vê obrigado a cancelar essa viagem. Parece chato, até você descobrir que, no momento que você estaria descendo aquela serra, naquele exato momento ocorreria também um acidente, um acidente feio, um deslizamento de terra, ou alguma coisa desse tipo. Ta que a chance de que você estivesse de fato envolvido nesse acidente é remota, mas vai que acontece… Pensando por ai, seus instintos, predileções paracientíficas, ou o mesmo destino parecem ter te protegido, parecem ter te preservado, ou parecem ser seus amigos.
Há uns dois ou três dias atraz, não me lembro bem, eu tinha uma parte de mim que me dizia pra não atravessar aquela rua, eram perto de dezoito horas e a rua estava muito movimentada, uma espécie de hora do rush com carros apressados, ônibus lotados, pessoas voltando pra casa, pessoas correndo de casa, pessoas indo pra escola, pensamento voando mundo afora, enfim, depois de mais um dia enfadonho, de mais um dia enjoado, de mais um dia de trabalho sem sentido, de mais um dia sem motivo, sem sentido, sem sentido mesmo. Cada um na sua viagem, mas todos na mesma passagem… cada um na sua viagem. Sente a brisa?
Faz dois ou três dias no máximo que eu cai na bobagem de não esperar minha mãe terminar seus afazeres, me apressei também, sem motivo algum, pra mim de nada valeriam aqueles cinco minutos, tenho certeza que a minha televisão me esperaria no mesmo lugar de sempre. Hoje eu digo isso com toda a certeza que meus instintos me passavam e eu, em um minuto de estupidez não pude compreender.
Faz dois, no máximo três dias, uma avenida com nome de rio, ônibus lotado, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro, carro…
__Me espera ai filhinho, a mamãe já ta indo.
__Não mãe eu vou correr se não eu perco o Hugo…
Carro, carro, carro, um Volks vinho, minha bicicleta, um Volks Logos, minha bicicleta. Um Logos vinho. Caminhos que se cruzam.
O céu, o vôo, o capô, o carro, o solo.
Sangue.
Sangue
Sangue.
__Meu Deus segura meu filho.
__Ih… desse ai não sobrou nem a alma…
Sangue.
Sangue.
Depois disso, eu me lembro do dono da loteria, em seu carro, correndo comigo pro hospital, lembro da minha mãe me segurando, lembro do meu pai chegando mais tarde, afoito, tentando disfarçar a preocupação, eu só queria ir jogar bola e comer strogonoffe no outro dia, não sei se de frango ou de filé, mas tinha batata palha. Ah e me lembro também de ter escutado pela primeira vez o “Vamo Batê Lata” dos Paralamas, mas especificamente da música “Dos Margaritas” …
Eu fiquei sabendo que fazem dois ou três dias que a prefeitura mandou colocar um quebra-molas bem no lugar onde eu fui atingido, um quebra molas e uma faixa de pedestre, quase que um homenagem pra mim, ou pelo menos eu me senti assim quando me contaram… Mas tem dois ou três dias que eu passei lá, e pra minha surpresa, retiraram o quebra molas… mas a faixa de pedestre continua. Assim como meu medo de bicicletas.

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