De ônibus aquele caminho parecia ainda mais longo. Ano a ano, ficava mais duro, mais difícil, mais longe. Diziam que só o tempo poderia curar aquela dor. Mentira. O tempo só fazia catalisar. Aquilo só aumentava.
Eram cerca de 45 minutos. De trânsito limpo é claro. Quando chovia (e sempre acontecia) ou quando alguma das marginais tinha algum problema (isso também sempre acontecia) o tempo dobrava, as vezes até triplicava.
Sentada, sempre na janela, observava os carros, as motos, as pessoas. Imaginava se alguma delas já sentiu dor parecida com a dela. Não. Era impossível que doesse tanto e continuassem sorrindo. Continuassem andando. Seguissem em frente. Continuassem vivendo.
O tempo que deveria curar aquela ferida só conseguiu aumentá-la. Pensava a cada momento, no que poderia estar vivendo, no que deveria estar vivendo. Poderia estar sorrindo, cantando, conversando, falando, escutando, jogando, amando ou só rindo.
Não se conformava com a forma estúpida com que se dera tamanha tragédia. Era óbvia a ironia do destino. Sentia-se um joguete, e por isso se virou contra quem sempre imaginou que a protegesse. Contra quem sempre dedicou sua devoção e oração. Não era fiel seguidora de seus dogmas, preceitos ou mandamentos. Acreditava em sua existência mas na maioria das vezes ignorava seus mandamentos, mas mesmo assim rezava nas datas especiais e ia a igreja em quase todos os casamentos a que era convidada (principalmente naqueles em que os convites da recepção só eram entregues durante a cerimônia religiosa) e nos batizados, esses ela comparecia e se emocionava com todos.
Mas não, ele ignorou isso e permitiu que uma tragédia como essas acontecesse. Pista molhada, na volta pra casa, não estavam tão rápidos, e aquele caminhão havia entrado na frente de seu carro (não importa o que dizia o laudo), não havia como fazer nada. Exceto pelo fato de seu amado estar com sono. Se ela ao menos dirigisse talvez…
Mas o “se” não existe. E ele morreu, agonizando ao seu lado. Preza pelas ferragens ela não pode fazer nada. Implorou para que os Anjos do Asfalto o salvassem em vão. Era como se gritasse para ninguém, eles nem mesmo tentaram. Concentraram-se nela e tão somente nela.
Não faz sentido isso, até porque sua vida sem a dele não fazia o mínimo sentido. Até por isso deixara o seu trabalho, em tempo, não foi preciso nem voltar a seu escritório suas colegas de trabalho já sabiam que nunca mais teria condições trabalhar, sabiam que era ele um órgão vital e sem possibilidade de transplante dela. Era uma espécie de coração que não é uma bomba, era uma espécie de coração que servia mais como um pulmão, que lhe garantia o ar.
Doze anos de casada e não se dignou a tirar a sua habilitação, e por falta de carro para dirigir não foi. Agora dependia de ônibus para tudo. Visto que taxi era um verdadeiro absurdo.
Até para sua visita ao cemitério. De ônibus a viagem parecia ainda mais longa do que deveria ser. E a cada ano aquele martírio parecia ser maior.
E ela que sempre fora uma pessoa tão alegre, com tantos amigos, viu seus amigos se afastarem, viu sua família se afastar. Sua tristeza repelia as pessoas. Aquela perda não havia apenas arrancado um pedaço dela, mas também arrancará delas as pessoas com quem convivia.
Sua casa, antes tão alegre, se tornará uma casa escura. Seu jardim, parecia mata abandonada, e não importava o quanto ela cuidasse as ervas daninhas sempre se instalavam. E consumiam seu gramado, suas roseiras, suas margaridas. A goiabeira que antes dava tantos frutos, agora parece que só brotavam goiabas podres que caiam e pioravam ainda mais a situação de sua casa.
Depois de algumas semanas da tragédia, voltou a escola onde lecionava. Sua tristeza era noticia tão corrente que a diretora havia se apressado e colocado outra pessoa em seu lugar. Um homem. Aparentemente um homossexual sem dúvidas, um péssimo exemplo para aquelas crianças. Mas aquilo já não era de sua conta.
Seus parentes perceberam que ela precisava de ajuda. E um dia enquanto ela ia para o cemitério, chamaram um mutirão e foram limpar sua casa. E o fizeram com muita competência. Mas pra falar a verdade ou seus amigos mudaram muito, ou aqueles eram novos amigos que conquistará em suas últimas visitas a padaria, onde nunca levava nada, mas gostava de sentir o cheiro do pão fresquinho, um dos únicos prazeres que ainda se permitia sentir.
Um dia quando voltava pra casa, viu um caminhão na porta de sua casa. Sua primeira reação foi de susto, acho que estavam levando tudo o que era seu. Quando observou com mais atenção percebeu que na verdade o caminha descarregava em sua casa. Seriam presentes?
De perto viu que algumas pessoas estavam dentro de sua casa. Logo percebera que algum de seus amigos havia preparado aquilo. Afinal perceberam que aquela solidão só lhe faria mal. Novas pessoas naquela casa grande afinal fariam bem aquela casa, contudo que não se atrevessem a mexer em seu santuário, que estava preservado no sótão.
De ônibus era sempre mais problemático, em uma de suas últimas visitas ao cemitério, teve de se levantar apressada de seu lugar, antes que uma jovem com aqueles malditos fones no ouvido sentasse em cima dela, sem ao menos perceber, aquilo a revoltará, revolta ainda maior quando percebeu que o cobrador ao ver a cena não fizesse nada. Aquilo valeria uma reclamação escrita aquela companhia de transporte urbano.
Chegando em casa naquele dia viu que seus novos companheiros estavam limpando o sótão, ignorando suas recomendações. Ela já havia lhes deixado toda a casa. Quase não usava cozinha ou banheiro, o sótão era o único lugar em que ela pedira encarecidamente para que não violassem. Seus pedidos, avisos, gritos e choros foram ignorados sumariamente.
Voltou ao cemitério para chorar onde ainda sentia que tinha um colo. Olhou para suas mãos e percebeu que podia ver através dela. Olhou para o lado e pela primeira vez observou uma lápide ao lado da lápide de seu marido. E percebeu que os dizeres eram os mesmos que houvera escolhido para a lápide de seu amado. De repente e não mais que de repente sentiu uma enorme vontade de se deitar. Nem considerava a possibilidade de suicídio. Mas queria sentir de novo o calor que só sentira ao lado de dele.
Ali ela deitou-se. E ali ela, depois de muito tempo, repousou.

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