__ 7 dias de maresia e você ainda quer ficar mais? Eu não agüento mais esse sal no meu corpo, essa atmosfera salobra no ambiente. E esse mormaço insuportável? Não importa guarda-sol, guarda-chuva, protetor solar com fator 200, óculos escuros ou o que quer que seja no final do dia eu fico sempre na mesma. Vermelha que nem tomate maduro.

__É só mais um dia. Eu prometo que as quatro da tarde nós pegamos estrada. Subimos a serra antes da hora do rush e fica tudo bem. Ah! Eu mereço isso, afinal amanhã eu já tenho que, de novo, encarar aquele emprego chato, encarar meu chefe chato, reunião chata, vestir meu terno chato, comer comida chata, do lado de pessoas chatas…

__Ta bom querido. Eu não quero ouvir mais nada. Agente fica… Mas ó: é da praia direto pra estrada, você toma banho em um quiosque e de lá nós já pegamos estrada. Você sabe que até BH a viagem é longa, a serra é perigosa, e a linha vermelha me causa arrepios.

__Pode deixar meu bem, eu só preciso pegar mais uma onda. Não agüento ficar cercado daquele mar de montanhas e não encontrar água pra nenhum lado que eu olhe. Aqueles morros me parecem um grande martírio…

Três horas depois…

__Você não sai da água hein? Nem pra comer o sanduíche que eu pedi pra você…

__Aquelas ondas estavam imperdíveis…

__Mas e agora vai pegar estrada assim: cansado?

__Bem que você podia dirigir pra mim hein…

__Nem começa! Você sabe que eu tenho pavor de volante. Estrada então (sic) eu não pego nem em pensamento!

__Bem que agente podia encontrar uma daquelas banquinhas de banana ouro na serra… Eu adoro aquelas bananinhas…

__Foi uma boa semana, não foi?

__Sempre é! Com você, toda semana é uma boa semana pra mim…

__Você preparou alguma coisa pra gente ouvir na estrada?

__Eu salvei aquelas músicas que você adora nesse player.

__Ah é?

__Tem de tudo aqui, de tudo que é bom é claro. Tem Beto Guedes, tem Lô Borges, Milton Nascimento!

__Tem o Pinduca?

__É claro!

__Eu te falo mulher, sem você eu não conseguiria…

__Nem eu sem você!

__Ah! Tem o último do Milton aqui! Aquele de bossa!

__O que ele gravou com os filhos do Jobim?

__Esse mesmo.

Falar que eu estou contando a história de um casal não me parece necessário (apesar de já tê-lo feito). Doze anos de casados. Nenhum filho. Moravam em um apartamento no Bairro de Santa Mônica, um ótimo lugar pra se viver em Belo Horizonte, uma ótima cidade pra se viver. Capital de um estado que só não é mais do que perfeito porque alguém, não sei bem o porquê não fez o óbvio: transformar o Espírito Santo em parte do estado de Minas. Poderiam até ter deixado de lado a região do Triângulo (que só é mineiro no nome) em favor de entregar a Minas o tão merecido braço de mar…

Questões geopolíticas aparte, viviam bem, os dois tinham bons empregos, ele funcionário de um banco, advogado por formação, mas nunca exercera sua profissão, ainda na faculdade foi estagiar em um grande banco e por lá ficou, exercendo as mais diversas funções, nunca aquela que aprenderá na faculdade, nunca a que seu diploma pudesse sugerir.

Ela funcionária pública estadual, trabalhava na secretária da cultura, talvez a secretária com menos recursos disponíveis, mas sem dúvidas a secretária com menores problemas e portanto com melhores condições de trabalho, afinal podia ficar perto dos artistas que tanto admirava, não pagava pra entrar nos espetáculos que queria assistir, isso quando não era uma das “fomentadoras” desses espetáculos, atributo esse que mais lhe encantava no cargo que exercia.

Todo ano eles tiravam férias juntos, dividas em dois períodos, em um deles eles viajavam para o exterior, queriam conhecer o mundo juntos. No outro eles não abriam mão de passar pelo menos uma semana no Rio de Janeiro, não havia como resistir ao Rio de Janeiro, saindo de BH são menos de 500 km. 500 km de uma viagem linda, a serra por exemplo é magnífica. É perigosa todo mundo sabe, principalmente no verão, quando sempre chove, mas é linda. Disso eu não tenho dúvidas.

A cumplicidade dos dois era uma coisa impressionante. Tinham os mesmos gostos, os mesmos desejos, as mesmas vontades, torciam pro mesmo time. Eram atleticanos, os dois, e por isso só compravam carros pretos ou brancos, na verdade só compravam carros pretos, por que carro branco em Belo Horizonte é carro de taxista, portanto pra evitar qualquer problema só compravam carros pretos, e apesar dela não dirigir, sempre tiveram dois carros na garagem.

Parecia um daqueles casais que realmente nasceram pra se completar, nas palavras, nos gestos, nas concepções, nas idéias. Era impossível imaginar um sem o outro ou o outro sem o um.

__Amor! Olha ali a banquinha de bananas!

__Amor?!

__Oi querida.

__Você estava dormindo? Para esse carro!

__Não querida eu não estava…

__Para esse carro!

__Amor… A estrada é perigosa! Você sabe disso. Vamos parar em um posto e amanhã agente segue viagem.

__Mas meu bem você sabe que eu não posso me atrasar, amanhã o gerente da sucursal latino americana do banco vai estar aqui e ele quer falar comigo, logo cedo, eu não posso perder essa reunião por nada!

__Mas vamos só tomar um café, pra você acordar.

__Mas amor se agente ficar parando toda hora eu vou perder os gols da rodada…

__ Ta bom amor, mas cuidado. Não vale a pena agente se arriscar por gols da rodada.

__Pode deixar querida.

Os indianos têm a interessante teoria do amor que se constrói depois do casamento, do amor que não vinga antes do casamento e torna-se então o motivo do enlace, mas do amor que, só acontece depois do compromisso. Eu seria estúpido em dizer que isso aconteceu com esse casal, mas também o seria se não admitisse que conjugados eles só fizeram crescer, e tornaram-se dia após dia órgãos vitais do organismo um do outro.

(Vinte minutos de viagem depois e ela se abaixa pra tentar recuperar uma aspirina que deixara cair em seus pés, mas viajando ficam tantas coisas em seus pés são bolsas, garrafas com água, biscoitos, blusa de frio, case de CDs, caixinha de primeiros socorros… )

__Querido eu posso trocar de música?

__Querido eu posso trocar de música eu não agüento essa mulher gritando no meu ouvido!

__Querido?! Você está acordado?

__Amor a estrada!

Dor é na verdade uma mensagem que o nosso corpo nos manda pra dizer que algo não está bem que algo estar errado dor é sinal como sinal de fumaça dos índios como mensagem que recebemos pra lembrar que o pagamento do telefone era na verdade ontem dor te avisa quando o corte já esta feito quando o osso já esta quebrado quando o estrago já esta feito e o engraçado é que nós sabemos quando essa dor vai chegar nós sabemos quando está tudo próximo de acabar prova disso é que quase todas as pessoas que passaram pela experiência do quase morte em acidentes ou quando confrontadas com armas ou em qualquer situação essas pessoas sempre relatam que em poucos segundos conseguiram refletir e rever tudo aquilo que foi importante em suas vidas conseguem em frações de segundos rever sua infância seus amores suas dores seus pais seus animais sua terra seus pecados suas virtudes suas cores e seus amores nesse momento ele perdeu o controle chovia chovia muito e a serra na chuva fica especialmente perigosa os caminhões com suas manutenções sempre em atraso passam deixando óleo por toda a pista óleo que seca no calor mas que com a chuva volta a ter seu efeito de lodo de cachoeira ele acordou assustado com o grito de sua esposa bateu os pés no freio de nada adiantou a colisão era iminente o farol do caminhão que via logo a sua frente só aumentava a sensação de pânico só aumentava a cara de pânico daqueles dois o fim era mais do que nunca questão de segundos fração de segundos aquela colisão entraria para os anais da história daquela bela estrada chovia muito naquele começo de noite já ouvi falar que moradores inescrupulosos de casas na beira da estrada jogam óleo na pista só para que os carros rodem e os ocupantes possam contratar seus serviços alugar seus telefones comprar seus badulaques e coisas assim um absurdo sem fim (sic) mas o qual eu não duvido não me resta narrar muita coisa um carro de passeio quando bate de frente a um caminhão que descia na banguela pra economizar combustível só pode ter um único resultado e as fotos daquele acidente seriam horríveis chovia muito naquele dia a montanha parecia chorar era o fim de um caminho que não parecia ter fim nem pra um nem pra outro ele dormiu no volante não o farol do caminhão ficava cada vez mais perto chegava cada vez mais perto em tempo de ainda relembrarem as alegrias do casamento dia especial que fora a muito tempo daquele dia até hoje dia especial que se passara e eles se amaram passou por essas catarses não sem tempo  não percebeu que invadia a pista contrária não percebeu que sua velocidade estava alta chovia e a pista escorregadia só catalisava as chances daquela colisão ele estava cansado passará  o dia no mar debaixo do sol e isso cansa até o mais bem preparado dos atletas mas eles não podiam viajar amanhã não podiam ele não podia perder a reunião e ela não podia dirigir estava posto e em tempo ele estava exausto não ela tem medo de estrada justamente por isso ela tem medo de ser a responsável por um acidente como esse e eles se amavam e eles acertaram o caminhão em cheio e foram arremessados pra fora da pista por sorte não para o lado da ribanceira o carro estava acabado não havia como sobreviver a aquilo. Não?

(E no jornal do dia seguinte)

Acidente na estrada que liga Belo Horizonte ao Rio de Janeiro um carro de passeio bateu de frente a um caminhão, ambos estavam em alta velocidade e chovia muito no local. O motorista do caminhão que sofreu apenas ferimentos leves alega que o carro atravessou seu caminho. No carro havia dois ocupantes, um casal que voltava de férias. O marido morreu na hora, a esposa foi encaminhada em estado grave para a UTI mais próxima com poucas chances de sobrevivência…